Cordelirando...

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Neste blog você encontrará alguns cordéis de Salete Maria, bem como notícias acerca de sua produção e seu diálogo com outros artistas
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Lugar de Mulher, recitado por Salete Maria

sexta-feira, 27 de março de 2009

Carta Aberta ao Reitor no Aniversário da URCA

Magnífico Reitor
Receba esta cartinha
E dela seja leitor
Na data que se avizinha
Da URCA, o natalício
E “por dever de ofício”
Reflita uma coisinha

A melhor coisa do mundo
É não ter o rabo preso
Não fazer papel imundo
Nem na consciência peso
É poder dizer: “discordo”
Pois quanto mais cedo acordo
Meu cérebro não fica obeso

No governo de Herzog
Eu redigi dois cordéis
Também botei no meu blog
E divulguei em papéis
As irregularidades
E muitas iniqüidades
Daqueles tempos cruéis

Agora no seu mandato
Da “URCA do jeito certo”
Não é meu desiderato
Ver o errado encoberto
Penso que ser coerente
Não é plantar a semente
E fugir para o deserto

É preciso cultivar
Aquilo que se plantou
Se for preciso arrancar
O mato ruim que gerou
Cortar a erva daninha
Fazer uma fogueirinha
E ver se o fogo pegou

Queimar as coisas erradas
Finalizando as mazelas
Não fazer vistas cerradas
Nem compactuar com elas
Tomar medida urgente
Na condição de gerente
Pra ver se dá cabo delas

É preciso tomar tento
Pra erros não repetir
Ficar bastante atento
Não cochilar, não dormir
Tampouco ser conivente
Ou mesmo ficar silente
Fechar a porta e sair

Senhor Reitor e amigo
Eu já lhe adverti
Já lhe mostrei o perigo
Dos desmantelos que vi
Mostrei-lhe a coisa ruim
Pro Senhor botar um fim
E boa-fé eu senti

Porém até esta data
Não vi profunda mudança
Nenhum registro em ata
Contra o mal que avança
Muita coisa piorou
E o Senhor não tomou
Das rédeas, a liderança

Por isto este cordel
Para que o Senhor leia
E tire da cara o véu
Ou o que lhe encandeia
E abra bem o seu olho
Botando as barbas de molho
Antes que isto dê cadeia

No seu governo de agora
Também tem corrupção
E ninguém mais ignora
Que tenha perseguição
Privilégio e nepotismo
Desmando e continuísmo
De cargo acumulação

E tem verba desviada
Pra favorecer amigo
Tem função que foi criada
Olhando só pro umbigo
Imoralidade tem
Muita maldade também
Causando choro e gemido

Tem irregularidade
A torto e a “Direito”
Tem muita facilidade
Pra quem cultiva o mal feito
Redução de carga horária
Viagem e muita diária
Pra tudo “se dá um jeito”

Tem coisas nos bastidores
Mas também a céu aberto
Tem cargos de pró-reitores
Criados meio incorretos
Tem lama na FUNDETEC
Em Iguatu falta o MEC
Pra ver os erros de perto

Tem muito ad referendo
Quando a coisa convém
Muito processo perdendo
O objetivo que tem
Prazo não é respeitado
Tem parecer “fabricado”
Pra quem só disser amém

Tem rigores para uns
Pra outros, “deixa fazer”
Há proteção para alguns
Pra outros: “vão se foder”
A cartilha herzoguiana
Despótica, vil e tirana
É cartinha de ABC

A incompetência também
Faz o pacote completo
Erros crassos vão e vêm
São o hobby predileto
Dos que sem qualquer pudícia
Carregados de malícia
Contra a lei dão seu veto

E que dizer dos horrores
Que fazem pra aparecer?
Ocupando sem pudores
Funções que não podem ter
Tem professor graduado
Opinando em doutorado
De quem pede parecer

Ademais tem os conchavos
E os “acordos de paz”
Tem os “nove/doze avos”
Que com tudo se apraz
Corroborando a sujeira
Achando que é bobeira
Quando denúncia se faz

E alguém pode até dizer
Que critico porque quero
Um cargo pra “me fazer”
E deixar de lero-lero
Convites lhe recusei
Porque eu jamais lutei
Pra voltar a estaca zero

Digo-lhe que valorizo
A URCA onde estudei
E isto eu sempre friso
Ao ensinar o que sei
Esta Instituição
Mora no meu coração
E defendê-la é lei

Reconheço que você
Tem feito algum progresso
Sei que há muito por fazer
E lhe desejo sucesso!
Mas não precisa dinheiro
Para com coragem e zelo
Evitar um retrocesso

Celebro o que de bom
A URCA pôde ganhar
Isto demonstra o seu dom
De saber se articular
Mas, por favor, convenhamos
Nem só de parede e planos
Se faz um bom governar

Imagino que é difícil
Resolver tanta questão
Mas faça um sacrifício
E exija a união
Do povo que tá ganhando
E mal lhe assessorando
Sem mostrar nenhuma ação

Em prol do seu reitorado
Contribuo com projetos
Porém todos são barrados
Quando não estou por perto
Sinto na pele o problema
Acaba com este “esquema”
E faça do JEITO CERTO!

Quem avisa amigo é
E eu sou amiga sua
Por isto meto a colher
E também sento a pua
Pro senhor ficar esperto
E a URCA DO JEITO CERTO
Não ser julgada na rua

Em breve volto pra casa
Pra continuar somando
Não pense que criei asa
Porque tô filosofando
Não vou arribar daí
Me demitir e partir
Como muitos tão pensando

Meu desejo é ajudar
E ver a URCA crescer
Cada vez mais elevar
Nosso nível do saber
Seja através da extensão
Ou na pós-graduação
Pesquisa temos que ter

Por isto, democratize
O debate e as instâncias
Pra que seu povo não pise
Com toda sua arrogância
Em quem ajudou você
A Reitor se eleger
E a plantar esperança

Por aqui eu me despeço
E lhe remeto um abraço
A única coisa que peço
É que desate o laço
Que prende sua ação
E impede a revolução
Em plenas águas de março!

Salete Maria, 2009

Musicaram meu cordel!

A grande artista paraibana Socorro Lira musicou meu cordel Maria de Araújo e seu lugar na história ou a Beata beat cult.
Observem como ficou maravilhoso:


MARIA DE ARAÚJO e seu lugar na história ou A Beata Beat Cult

Maria de Araújo
Beata, pobre, iletrada
Desse enredo não fujo
Que história mal contada!
Ela não foi figurante
Era estrela fulgurante!
Da hóstia ensangüentada

E pra fazer este verso
Este texto teatral
Onde o fato controverso
Merece atenção total
Eu li Do Carmo Forti
Playboy, Bataille e gibi
Cordel, cartilha e jornal

Nesta ficção real
Dou voz a um narrador
A minha avó sou leal
Pois foi ela quem contou
Como era o Juazeiro
Naquele tempo primeiro
Quando tudo começou

(Dou voz a pesquisadora
E vou chamá-la de P
De N a narradora
E minha vó vai ser V
Se MANO se interessar
E quiser dramatizar
Esse cordel vai render...

Enquanto eles se ajeitam
E fazem a maquiagem
Aqui vocês se sujeitam
A me ouvir falar bobagem
Eu digo que este cordel
Só cumprirá seu papel
Se for sentida a mensagem)

N:
Baixinha, negra e mouca
Casta, cambota e silente
Considerada “a louca”
Devota e penitente
Mulher sozinha no mundo
Só lhe restava, no fundo,
Achar que não era gente

P:
Vivendo num ambiente
Onde a religião
Era um forte componente
Para sua formação
Sem qualquer perspectiva
Sem pai, sem mãe, à deriva
Vivia em oração

N:
Obediente e prendada
Servia ao sacerdote
Vivia como agregada
Em Juazeiro do Norte
Na casa do Padim Ciço
Jovem, ainda no viço
Pranteava sua sorte

P:
Dizem que foi artesã
De muita habilidade
Contudo não era sã
Sofria de enfermidade
Espasmos, melancolia
Perturbação, anemia
Foi sua realidade

N:
Muitas vezes recebia
Certas manifestações
Cristo e a Virgem Maria
Em muitas ocasiões
Surgiram na frente dela
Na camarinha a donzela
Via tias aparições

N:
Às vezes não entendia
Chegou a se rebelar
O Padre Ciço dizia:
Maria vá comungar
Orava com muita fé
Aquela simples mulher
Cuja história vou contar

P:
Com nove anos de idade
Ficou sozinha na terra
Viveu sua mocidade
Ali pertinho da serra
Da Chapada do Araripe
Porém nunca andou de jipe
Mas soube onde o bode berra

N:
Tinha suas turbulências
Seus agitos buliçosos
Ouvia maledicências
Dos ‘espritos’ invejosos
O seu corpo tumefacto
Fazia lembrar um cacto
Daqueles mais escabrosos

N:
Recebia muito insight
Muita sincronicidade
Às vezes dentro da night
Clamava por piedade
Era um ser especial
Etecetra e coisa e tal
Dentro daquela cidade

P:
Isto já era comum
E o Padre aconselhava
A que fizesse jejum
E água benta lhe dava
Ela a Jesus se entregou
Por esposo ela o tomou
E já não se lamentava

N:
Como ela, outras beatas
Viviam desse fervor
Eram todas celibatas
Sublimavam seu amor
Moral e religião
Para evitar que o cão
Atentasse a vida em flor

N:
Assim o tempo corria
Nas terras do Juazeiro
O cenário que havia
Chamavam de tabuleiro
Mandacaru, xiquexique
Casinhas de pau-a-pique
Muita novena e romeiro

V:
Muita vela e lamparina
Muita cabaça e quartinha
Donzelas e vitalinas
Muita cumade e madinha
Menino tinha em magote
Na feira vendiam pote
Mii e saca de farinha

V:
Jumento pra todo lado
Chapéu, arreio e gibão
Um coronel potentado
Uma cúia de algodão
Uma muié dando a luz
Fazendo o sinal da cruz
Parindo mais um cristão

V:
A vida ali era assim
No mei dos pé de Juá
Celebrava meu padim
E as beata a rezar
Às veiz uma desavença
Dispois uma penitença
E tudo vortava ao normá

P:
Até que chegou o dia
Da dita transformação
Na hora da eucaristia
No meio da multidão
A hóstia ensangüentada
A besta extasiada
Deu-se o ‘milagre’ então

N:
A partir deste instante
O padre é taumaturgo
Fanatismo militante
Do bispo veio o expurgo
Maria não é ouvida
Chega a ser preterida
No famigerado burgo

P:
Volúpia religiosa?
Nirvana espiritual?
Orgia miraculosa?
Gozo uxório-marginal?
Ápice-leigo-evangelista?
Fetiche-romão-batista?
Ou menstruação bucal?

N:
Tantas interrogações
Nas mentes episcopais
Em suas lucubrações
Se masturbavam os tais
Hereges e dogmáticos
Abutres neo-carismáticos
Médicos e maiorais

P:
Investigação ferrenha
Sindicante apuração
Neste fogo muita lenha
Botava o bispo então
Para provar o engodo
Chafurdava ele no lodo
Do sangue da comunhão

P:
O alvo era o vigário
Que ganhava posição
Com aquele relicário
De grande repercussão
O poder ameaçado
O bispo horrorizado
Queria a tal suspensão

N:
E assim tudo se deu
O padre foi impedido
A igreja entendeu
Que aquilo era um perigo
Mas a beata coitada
Já andava acabrunhada
Longe do seu velho abrigo

V:
Levaro ela pro Crato
Pra casa de Caridade
Inzageraro no ato
Num tinha nicissidade
Improibiro de falá
Vivia a pobe a orá
Foi grande a iniqüidade

P:
Deixaram ela reclusa
(prisão domiciliar)
Que história obtusa
Não podemos aceitar
A beata inconsolada
Sofria, ali calada
À revelia, a penar

N:
Um tribunal de exceção
Um caça à bruxa devota
Vejam que situação
O padre era poliglota
Ela, coitada, nem lia
Tampouco ela sabia
Que o poder tudo esgota

N:
Desde então deprimida
Orava, orava e orava
Assim findava a vida
Tristonha, muda, calada
Depois que foi sepultada
Cova vilipendiada!
Pra não lembrarem de nada

P:
Representava ameaça
A quem detinha o poder
Viveu para ser a caça
Nada mais podia ser
A hóstia não foi em vão
Vide a Meca do Sertão
Muito tem a nos dizer

N:
Rua Beata Maria
Num dos bairros populares
Quanta glória e honraria!
Nem andor e nem altares!
O teu lugar na história
Que perecível memória!
Não coube em nossos lares

N:
O teu bendito beata
Belisca a hóstia de trigo
Teu sangue no pano-ata
Faz medo qual papa-figo
A tua beatitude
De pé rachado e rude
Tá no meu sangue e não digo

V:
Num digo que sou beata
Num digo que eu sou tu
Mas digo que tu faz farta
Quando tempero o angu
Pru que eu sinto o sabô
Da hóstia que dismanchô
Do pão que tu comeu cru

N:
Eu faço um falso bendito
Uma cantiga enjoada
Enquanto faço acredito
A vida é uma embolada
Quantas beatas-maria
Eu vejo aqui hoje em dia
Mudando a história contada

Todos: (ritmo de embolada)

Eu bato o pé e beato
Beato batendo o pé
Batendo o pé eu desato
No ato eu boto fé
Me bato em penitença
Punindo a história pensa
Que torta quebra meu pé

Batendo palma beato
Batendo bolo também
Batendo pano no ato
Batendo roupa e xerém
Beato meu beabá
Beato até bodejá
Beato como ninguém

Beato e bato punheta
Bato baralho e beato
Beato e bato marreta
Bato carteira e beato
Bato sentado e em pé
Porém não bato em muié
Nem bato meu pau no gato

Beato e bato uma bola
Bato as asas e beato
Beato e vou a escola
Construo casa e beato
Beato pedindo esmola
Beato e bato a cachola
Beato e tiro retrato

(Ritmo de Bendito)

Beata, a ata, beata
Desata a ata beata
Beata, beá, beata
Bata beata a bata
E bata beata a ata
Beata ata e bata
Beata ata e teatra!

Teatra a ata beata
Desata a ata e bata
Beata a bata beata
Bata beata a bata
E bata a ata beata
Beata bea beata
Teatra, beata e ata!

MULHERES (invisíveis) DE JUAZEIRO

Vou pedir vênia ao leitor
E prepará-lo ligeiro
Dizer o que ensejou
O ‘Mulheres de Juazeiro’:
Além de uma homenagem
Farei, com muita coragem,
Uma denúncia primeiro:

Em março, no dia oito
Aqui em nossa cidade
Há sempre um ato afoito
Partindo de autoridade
‘Mulheres conceituadas’
Todas homenageadas
Sem ter legitimidade

Vê-se na programação
Das festas oficiais
Muita condecoração
Pras ‘damas especiais’
Alencar, Tavares, Cruz
Bezerra, Landim, da Luz
Todas estão nos jornais!

Concedem nome de rua
À diretora, à gerente
Dão um terreno na lua
À tal dondoca demente
Manda em toda a cidade
A mulher da majestade
Primeira-dama insolente

São as donas do pedaço
Tão em lugar de destaque
Não fazem o que eu faço
Mas estão no almanaque
Todo ano é assim
Preparam um boletim
E soltam mais do que traque

Chamam as exploradoras
(representando as demais)
Diante das emissoras
Televisão e jornais
Um homem muito imponente
Concede-lhes um presente
E dizem: “somos iguais”!

Faz tempo que isto ocorre
Sem que ninguém diga nada
Antes que o governo torre
Toda a verba arrecadada
Vamos fazer um protesto
Num verso coxo, modesto
Contra esta palhaçada

Lembremos como surgiu
A data internacional
Do nada não emergiu
Mas duma luta real
Por redução de jornada
(Muita gente assassinada)
Foi o marco inicial

Mulheres trabalhadoras
Vítimas da opressão
Foram elas precursoras
(a luta não foi em vão!)
Conquistas posteriores
Não são frutos de favores
São o nosso galardão

Porém é outra a História
Na versão oficial
E nos livros de memória
De rei, chefe ou general
Consta que só tem valor
Na pena do escritor
Quem ao poder for leal

É a mesma ladainha
Para agradar o barão:
“Toda rica é rainha
-pobre nunca tem razão-
Toda velha é caridosa”
Oh! história mentirosa
Cheia de enganação

É um grande besteirol
Doutora aqui e acolá
Dó-ré-mi-fá-si-lá-sol
Do bendito ao beabá;
‘Damas da sociedade!’
(modelos de falsidade!)
Pra quê homenagear?

Assim como na história
Também na biografia
Só a rica tem a glória
E tem genealogia
Retrato de comitiva
Data comemorativa
E muita apologia

Personagem principal
É a mulher do doutor
Deputada estadual
Neta de imperador
Esposa do empresário
Nora do escriturário
Quenga do interventor

Em tudo quanto é escrito
Onde a mulher é citada
O discurso favorito
(da persona destacada!)
É destinado à burguesa,
À grã-fina, à baronesa
À inútil potentada

À vossa alteza, à rainha
À chefe, à delegada
À juíza, à sinhazinha
À duquesa, à advogada
À senadora, à prefeita
À candidata bem-feita
Ao cargo de namorada

Por isso este folheto
(Um libelo acusatório!)
Com ele eu me intrometo
Faço dele um parlatório
Ninguém vai nos enganar
Outra versão vou contar
Neste meu verso simplório:

As verdadeiras mulheres
A quem “O Oito” pertence
(Presta atenção se tu queres
saber que juazeirenses)
Merecem toda atenção
Nossa consideração
Pois sua luta convence

Não pense ser a doutora
(cuja vida está ganha!)
Tampouco a promotora
Deputada que barganha
Não é a tal empresária
Nem a jovem milionária
Ou a beldade que apanha

Refiro-me a quem vive
Com um salário de fome
Àquela que sobrevive
E que, às vezes, nem come
Que nenhum parlamentar
Nem prefeito vai citar
Porque não sabe seu nome

É a mulher invisível
A quem vou me reportar
Para mim, indescritível
O grau de seu mal-estar
A ela, a louvação
Toda condecoração
Pra ela se deve dar

Tá na hora de se ver
Quem trabalha e constrói
Quem é que dá de comer
Quem sente onde o calo dói
Quem é mulher de valor
Nesse mundo enganador
Cuja mentira corrói!

Aqui eu faço uma ode
Às mulheres como eu
Aquela que ninguém pode
Que nunca esmoreceu
Que tem sua independência
Sobrevive com decência
Mas desconhece o apogeu

A tal Maria do povo
A quem ninguém dá valor
Mesmo de vestido novo
Todo enfeitado de flor
Na coluna social
Não se vê nenhum sinal
Do dia que ela casou

A rapariga, coitada
Dela só se fala mal
A sacoleira cansada
Amante d’um marginal
A manicure, a doceira
A vendedora de feira
Ninguém diz ser social

Mulheres de Juazeiro
São as que ninguém conhece
Nascidas nos tabuleiros
Que vivem de fazer prece
São as que têm sua cria
Sem plano, sem regalia
Que dia-a-dia adoece

São as que vão ao Sandu
Quando a dor lhes flagela
São as que comem angu
Que se lambuza e se mela
São as que não tem emprego
Os filhos pegam carrego
E vivem pela favela

São as que varrem a lama
Da rua por onde moram
As que carregam a fama
De que tudo ignoram
As que sentem dor de dente
Acham piolho no pente
Gargalham, dançam e choram

São as que fazem das tripas
Virarem o coração
São as que trocam as ripas
E que esfregam o chão
São as que seguem reisado
Que vestem panos rasgados
Que fazem renovação

As que improvisam beleza
-pois também têm vaidade-
As que driblam a tristeza
Roncam - pois são de verdade-
Que vivem na agonia
Enfrentam o dia-a-dia
Longe das celebridades

São as que vão ao mercado
E pouco podem comprar
São as que levam fiado
Depois não podem pagar
São, portanto, quem merece
Ter um dia uma benesse
Para a vida melhorar

São as doidas, desvairadas
As viúvas ‘sem porvir’
Mães solteiras, mal-faladas
Que torcem pro Guarani
Todas elas neste dia
Merecem ter alegria
Precisam, hoje, sorrir

As lerdas, as poetisas
Comunistas e beatas
As que soropositivas
Escondem-se, inexatas
Lesbianas e devotas
As puras como gaivotas
Lúcidas e insensatas

As ditas deficientes
As que se julgam sadias
As que têm todos os dentes
As que são cheias de estrias
As que têm mais de sessenta
As que vivem curubentas
As que fazem romaria

As que enterram irmãs
Vítimas da violência
Que acordam nas manhãs
E já não têm mais crença
As que são discriminadas
Pretas, pobres, segregadas
Que cumprem suas sentenças

As que na “Hora da Graça”
Suplicam pela Justiça
As que se drogam na praça
E chamam-nas de ‘mundiça’
As que vendem seu amor
- a quem Cristo perdoou-
Mas apanham da ‘puliça’

As que em ano de eleição
Vão agitar as bandeiras
Pois precisam d’um tostão
Pra completarem a feira
Que são sempre enganadas
Trabalham qual condenadas
Rumam sem eira nem beira

As que vivem oprimidas
Que não têm onde morar
As que só têm a vida
Que não podem estudar
As que estão aposentadas
As que têm dupla jornada
As que querem abortar

As que chamam ‘possuídas’
As que se entregam a Deus
As que são destituídas
Da guarda dos filhos seus
As que são violentadas
Dentro de suas moradas
Que descendem de plebeus

As que pensam que votando
Vão mudar de condição
As que crêem que rezando
Receberão o perdão
As que lutam noite e dia
Por uma nova alforria
Querendo revolução

As que são analfabetas
As que lêem demais
As que só fazem dietas
As que já comem demais
As que escrevem cordel
Que o povo chama pinel
Pois nunca vão pros anais

São estas que precisamos
Urgentemente enxergar
Nunca mais nos iludamos
Mais uma vez vou lembrar:
O OITO tem um passado
Precisa ser registrado
Pro povo valorizar

Espero fazer justiça
Através da poesia
Que saia alguma ‘nutiça’
Desta minha heresia
Que a honraria seja
Fruto da vossa peleja
E da nossa ousadia

Salve o poema maudito
Que desconstrói a versão
Que o poder tem escrito
Quase como uma oração
Onde só representantes
Com mandatos e palanques
Merecem tal emoção

Lembremos, pois, nesta data
Das mulheres invisíveis
Registremos numa ata
Seus apelos previsíveis
Pra quem o capitalismo
Com todo seu modernismo
Gera momentos terríveis

Salve a Maria da Silva
Lurdes, Ana e Josefina
Tereza, Tica e Dilva
Raimunda, Rosa e Idalina
Salve Socorro e Laura
Lindalva, Tonha e Isaura
Velha, madura e menina

Salve esta legião
Que constitui maioria
Do povo da região
E de toda cercania
Mulheres de fibra/forte
De Juazeiro do Norte
Faço-te esta elegia!

MULHER CARIRI - CARIRI MULHER

A luta por igualdade
Não se dá como se quer
No seio do Cariri
Ela enfrenta a maré
Não há praia por aqui
Mas há serra de pequi
Eis um Cariri Mulher

Combatendo a violência
Não deixando ela surgir
Demonstrando consciência
Sem mais precisar mentir
Dominando a ciência
Ou cultivando uma crença
Eis a Mulher Cariri

Querendo a delegacia
Acreditando com fé
Soltando o grito na praça
Marchando sempre de pé
Rindo sem pedir licença
Pois sua luta compensa
Eis um Cariri Mulher

No trabalho ou no estudo
Passeando por aí
No centro ou no subúrbio
Temos que admitir:
Mais corajosa não há
Sempre pronta pra lutar
Eis a Mulher Cariri

Com suas cidades jovens
(Basta vir ver como é)
Cada qual mais promissora
(Em Crato, a praça da Sé)
Balneários barbalhenses
Cascatas missão-velhenses
Eis um Cariri Mulher

Politizada e de luta
Como ninguém por aqui
Aguerrida na disputa
Matreira como saci
Sônia Maria não só
Dona Alice e seu forró
Eis a Mulher Cariri

Artesã e lavadeira
Professora também é
Cozinheira ou doutora
Para o que der e vier
Teimando sempre com garra
Seja na boa ou na marra
Eis um Cariri Mulher

Íris, sinônimo de arte
Não há como confundir
Cláudia Rejane e Nininha
A esquerda faz sentir
Maria José de Sales
Poesia contra males
Eis a Mulher Cariri

Passarelas, faculdades
Num barracão ou chalé
A presença feminina
Ascende tal chaminé
Não há coisa que não saiba
Nem lugar onde não caiba
Eis um Cariri Mulher

Em toda parte ela está
E nada a fará trair
A semente que plantou
É sua vez de gerir
Prefeitura ou parlamento
Ela já dá bom exemplo
Eis a Mulher Cariri

Mulher comandando a URCA
Pesquisando em Assaré
Advogando o direito
De viver como se quer
Na feira ou num tribunal
Seu nome tá no jornal
Eis um Cariri Mulher

Você que lê este verso
Chegou a vez de unir
A força que a gente tem
Não é só para parir
Vamos chegar lá um dia
Salve a beata Maria
Eis a Mulher Cariri.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Musicaram meu cordel!

A grande artista paraibana Socorro Lira musicou meu cordel Maria de Araújo e seu lugar na história ou a Beata beat cult.
Observem como ficou maravilhoso: